Serei doceira.
Terei uma cozinha grande
com tachos de cobre pendurados pelas paredes.
Farei tantos doces que o meu suor vai exalar aroma de frutas.
Maracujá, goiaba, manga, jabuticaba.
Todas com perfume do meu quintal
Vou distribuir, em forma de compotas, felicidade pelo mundo.
Doces são reserva de felicidade.
Que deverão ser usadas sem restrições para celebrar a alegria e confortar na tristeza.
Terei vizinhas que se sentarão à mesa para compartilhar receitas de vida.
E juntas escreveremos em nossos cadernos ingredientes e jeitos de fazer doces afetivos:
brigadeiro, beijinho, cajuzinho, olho de sogra…
Os preferidos dos nossos filhos e netos.
Embrulharemos em forrinhos de puro linho e fecharemos com fitas de cetim.
Depois de muitos anos, eles poderão buscar
nas folhas marcadas de açúcar e ovos,
a continuidade da comunhão e afeto de tempos presentes.
Poderei morrer tranquila
sabendo que às formigas restarão saborear
minha carne aromatizada no açúcar e nas frutas
ao longo de anos e anos mexendo o doce
para a vida não perder o ponto.