nos meus 40 anos

Abro os olhos e sinto um cheiro delicado de abacaxi que invade meu quarto anunciando mais um ano de vida. Vou até à cozinha, vejo a mãe colocando a fruta na panela com água, açúcar e ternura. Recebo um abraço com desejos e recomendações para uma vida feliz. Permaneço ali, em estado de contemplação, sentido o aroma da fruta volatizando em fogo brando.

Como todos os dias, a mesa está arrumada. Café com leite, pão fresquinho, bolo e só. Vou para horta. Sento nos tijolos que dividem os canteiros. Tomo café e sol vendo as verduras crescerem sem pressa como eu. Distraída, assusto quando a mãe grita para não perder o horário da aula. Visto camisa branca, saia azul marinho plissada, meias brancas, sapatos pretos. Ao escutar o sinal do Grupo Nossa Senhora Aparecida, saio apressada. Volto para casa, deixo os cadernos em cima da cama e contemplo longamente todos os objetos e coisas que amei.

Na rádio toca sucessos enquanto passo batom vermelho. Coloco um top de lese branca com alça fininha e uma calça jeans justa. Flávia avisa que já está pronta e não vai me esperar mais. Saímos sob a recôndita benção da minha mãe. A mescla arriscada entre uma mãe condescendente que coloca travesseiros na cama com cobertas em cima para simular o sono profundo de suas princesas e um pai autoritário gerou histórias para contar.

Mas, hoje é sábado e tem aula de laboratório. Ao som de chorinho e algumas doses de teorias freudianas vou tentando desvendar os mistérios do comportamento. Faço amigos que só existem quando são lembrados e outros que estão no coração sempre. O pensamento está longe, quando ouço:

– Adriana!  Tá no mundo da lua? Tá todo mundo esperando, minha filha. A mãe fala.

– Venha Cumadre Dri.  Reforça meu pai.

Chego na copa e o bolo de abacaxi está em cima da mesa coberto de branco pureza com velinhas em cima, em pé meu pai  olha com rudeza, sem raiva. Minha mãe sorri. Vejo os meninos da rua, meu primo Alexandre, Cláudia e Flávia. Olho para tudo com uma saudade de última vez. Antes de partir o primeiro pedaço, fecho os olhos. Faço um pedido. Abro os olhos e corto o bolo.

Vejo um glaciar que mais parece um suspiro gigante na minha frente. Fecho os olhos rapidamente com medo de tudo ter ser apenas um sonho.  Não é. Tenho 40 anos, ao lado do meu amor. Cheguei ao fim do mundo. Ganhei um rosto próprio, com as marcas que o tempo, os gestos, os sorrisos, as perdas, as preocupações, a tristeza e a alegria esculpiram na minha pele. Não me importo, rugas dão dignidade. Sinto-me feliz. Sentencio.

Foto do Glaciar Perito Moreno,El Calfate, Santa Cruz – Patagônia Argentina em 19/09/2012 nos meus 40 anos.

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16 comentários sobre “nos meus 40 anos

  1. Faz um tempo… uma perpectiva de olhar antigo onde cozinhar não era obrigação, mas uma forma de amar os outros, embaixo do pé de limão preparavamos os banquetes sem pressa a única convicção nossos preparos poderiam ser deliciados até por deuses, a mãe era convidada para ser júri, e o pé de limao se encarregava de ouvir o burburin, risinhos e o preparo de um cardápio espendido, penso Adriana, que o pé de limão deve se manter no mesmo local na esperença de reviver os momentos mais doces que ele pode presenciar, de meninas que teriam a vida inteira para escolher, claro ser simplismente ser feliz.

    Faz um tempo, e que tempo bom nossas metas eram qual cor da pilastra administrar, a cadeira que deviamos escolher e sentar-se de frente para um pomar generoso, o mais lindo que pudemos nos deleitar, ah! e la tinha canto de passárinho, cheiro de jambo, balanço, e um caminho com flores tão delicadas, aguardavamos impacientes pelo natal e pelos presentes trazidos pelos nossos pais.

    Faz um tempo, onde o poço de argila foi cenário para primeiro sentir, e depois criar as peças. Eram prontamente elaboradas e por ali ficavam, o que vem da natureza poderá encantar a propria natureza, nesse poço com tom de amarelo nao tinha tempo, julgamentos, era tudo diversão.

    Faz um tempo, em que eramos amigas da Lei da Gravidade, com absoluta certeza era a única hora de lazer que ela possuia foi em nossa companhia escalar telhados, avançar nos galhos mais fininhos para colher a fruta mais dificil, andar horas em muros, de altura que hoje tenho medo só de pensar. A gravidade nossa amiga de infância as vezes mandava algum recado, esfolões, arranhões, entre a amizade e a hierarquia existe uma tênue, tudo terminou bem!

    Faz um tempo que estar na missa, conectar-se com o sagrado tinha cheiro de domingo, as pipocas mais saudáveis e menos calóricas que saboreamos estavam na janela da igreja, eta missa demorada o anjo que me desculpe mas torçia por um sermão mais curto, para aproveitar o melhor lado da igreja : o de fora.

    Faz um tempo minha irmã que comparilhamos, momentos, atritos, alegrias, conflitos, brincadeiras, tempo de uma prosa longa com cheiro de café e pão de queijo que so tem aqui, nesse lugar provinciano que tenho orgulho patria minas. Hoje revisitei nosso passado e o compromisso de continuarmos unidas, e permitir que a vida aconteça sempre com ou sem dimensão, e que seu único tempo seja o PRESENTE.

    Feche os olhos, e sinta o quão é importante para todos nós. Te amamos! Feliz todos os dias, celebre.

    Bjos Cláudia.

    • Cláudia, seus desejos traduzidos nessas palavras são tão lindos. Foi um dos presentes mais lindos que já recebi. Ele vai sempre ter um lugar especial no meu coração e aqui no sabor com letras. Lugar que registro as coisas mais caras para mim. Obrigada, por tudo! Sempre.

  2. Também chorei de novo, porque estas histórias também fazem parte da minha história, aquele quintal era encantando, assim como o quintal da minha casa era pra mim, saudades de subir no pé de Jambo, morrer de medo da keli me morder, como a Cláudia disse, subir em árvores, andar em cima de muros que hoje tenho pavor também só de imaginar, sem falar quantas injeções contra tétano já tomei, de tantas peripécias que fazia, furava em pregos, ferro enferrujado, uma maravilha!!!
    O cheiro do café da tarde da sua mãe era maravilhoso, enquanto hoje as crianças todas tem computador em casa, naquela época eu achava o máximo sua casa ter televisão á cores….rsrs
    Quanto ao cardápio da cozinhadinha, nem sempre era tão gostoso, porque não esqueço de uma sopa de macarrão com um ovo estalado dentro que a Cláudia nos obrigava a comer, é o (trauma da minha infância) rsrsrs, como a Cláudia disse fazer moldes de argila era uma delícia, panelinhas, bonequinhas sem se preocupar em pegar doenças, era tudo festa, e eu e você que já fumamos muitos cigarrinhos escondido feitos de palha seca de chuchu…se achando verdadeiras fumantes..rsrs , tempo bom que não volta mais, é uma pena que que a as crianças e adolescentes de hoje com tanta tecnologia e modernidade não sabem o que é ser feliz de verdade, aquilo sim era uma infância abençoada, agradeço a Deus por assim como você hoje poder contemplar lembranças tão preciosas que o mundo de hoje não permitir outros viverem.

    Um grande beijo e muitos mais anos de vida pra você!!!

    Rosangela.

    • Rosângela. Foi um privilégio dividir uma época tão importante minha vida com você. Lembro de cada coisa que mencionou e estou rindo aqui do cigarro de palha de chuchu que eu e você fumávamos. Crianças tentando reproduzir e internalizar o mundo dos adultos… que muitas vezes não é saudável, mas que faz parte da experiência e construção de vida.

  3. Engraçado, toda vez que leio os textos referenciando minha infância fico com vontade de chorar.
    Hoje além do choro me deu uma vontade de abraçar as pessoas que amo.

    Adriana sinta-se abraçada. Te amo.

  4. ” – Menina que dorme debaixo do olhar de Deus, desejo que você não o perca jamais, que caminhe pela vida tendo a paciência como sua melhor aliada, que conheça o prazer da generosidade e a paz de quem não espera nada, que entenda seus pesares e saiba acompanhar os pesares alheios. Desejo a você um olhar limpo, uma boca prudente, um nariz compreensivo, ouvidos incapazes de recordar a intriga, lágrimas precisas e temperadas. Desejo a você a fé na vida eterna, e o sossego que essa fé concede” (Ángeles Mastretta) Tua escrita Adriana revela meus melhores segredos. Um beijo de flor!

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