no dia 07 de abril…

Alô, alô Realengo, aquele abraço… O Bairro Realengo na periferia do Rio de Janeiro sempre foi conhecido por abrigar grandes instituições militares do exército, mas ficou realmente conhecido nacionalmente pelo trecho da música Aquele Abraço, composta por Gilberto Gil em referência ao tempo que ficou na prisão militar no bairro na época da Ditadura Militar.
Na manhã de 7 de abril de 2011, o Bairro ganhou repercussão internacional quando Wellington Menezes abriu fogo de maneira indiscriminada contra crianças em uma escola que havia estudado há alguns anos.
Eu tomava café nessa manhã e escutava, de maneira perplexa, os jornais noticiarem a tragédia. Pensei na dor daqueles pais e no sofrimento que eu também estava sentido pela possibilidade de perder o meu pai que estava na U.T.I
A última vez que conversei com o meu pai foi por telefone, quando ele já estava internado. Quando cheguei ao hospital ele já estava desacordado e respirando através de aparelhos. Durante toda a semana fui visitá-lo e o seu quadro continuava inalterado, sem melhoras. Um bom sinal, de acordo com os médicos: – não piorar já é um passo, quando a saúde está muito debilitada – eles informavam dia após dia.
Recebi o mesmo boletim médico antes da visita e fui ao seu encontro. Diferentemente dos outros dias, em que ele estava totalmente sedado, naquele momento estava muito agitado. A sensação era que estava tendo um pesadelo forte, debatia-se, não conseguia acordar.
Sem saber lidar com aquela situação, fui atrás de ajuda. Fui informada que haviam diminuído a sedação para que ele fosse reagindo aos poucos e que provavelmente estava incomodado com todos os equipamentos e por isso o desconforto.
A agonia dele não diminuía e minha angústia de vê-lo daquela forma, amarrado, mesmo sabendo que era para não se machucar, crescia na mesma proporção. Os médicos aumentaram a dosagem de sedação e aos poucos ele foi se acalmando.
Em determinado momento, ele voltou a se agitar e novamente pedi ajuda. O som cadenciado dos aparelhos foi diminuindo, o batimento cardíaco sinalizado na tela começou a cair gradativamente. A enfermeira que estava comigo disse para eu ficar tranquila, pois como ele estava muito agitado havia saído um encaixe de um dos equipamentos de monitoração.
O relógio marcava quase 12:00 h, horário que encerraria a visita. Neste dia, ninguém veio avisar que já estava na hora de ir embora. Eu fiquei ali olhando a enfermeira recolocando os aparelhos de medição de maneira tranquila e fui me sentido mais aliviada por ele ter se tranquilizado novamente. De repente, me deparei com o olhar do meu pai, um olhar vazio. Imediatamente falei: – Ele está com os olhos abertos.
Wellington matou 12 crianças, eu escutava na TV enquanto aguardava o retorno dos médicos sobre o estado do meu pai. Um policial militar conseguiu acertar o atirador que, logo depois de ferido, se suicidou. O sargento Alves fez com que a tragédia não tomasse uma proporção ainda maior.
Fiquei ali escutando todos os detalhes sobre o caso , a ação heroica do sargento, os nomes das crianças assassinadas, o desespero dos parentes e amigos. Comecei a pensar no fato, do meu pai ter o mesmo sobre nome do sargento – Alves, e os dois estavam, nesse mesmo dia, travando uma batalha para preservar da vida, cada um a sua maneira.
Os médicos entraram apressados e pediram para que eu saísse do quarto, fui informada que ele estava sofrendo uma parada cardíaca e que fariam os procedimentos de reanimação. Pediram para que eu aguardasse e voltasse daí algum tempo. Antes de sair, disseram: Fique tranquila ele está vivo e está sendo atendido, o quadro é delicado, mas por enquanto está tudo bem. – O olhar dele não estava mais aqui, estava vazio – respondi.
Quando retornei, recebi a confirmação sobre o que já sabia.

Um ano após esses acontecimentos a vida renasce e é transformada , diariamente, apesar da perda…

Anúncios

3 comentários sobre “no dia 07 de abril…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s