cada lugar um sabor, cada sabor uma história

Lívia pediu para que eu comprasse ovos no Vilarejo, precisaria de duas dúzias para o preparo de Papos-de-anjo. Fui com satisfação. Adoro esse doce, mesmo antes de prová-lo já gostava. Apaixonei-me pelo nome.
Ela me contou que entre os séculos XVIII e XIX Portugal era o principal produtor de ovos da Europa, a maior parte da produção tinha um destino: fornecer clara para sua utilização na atividade manufatureira. A clara era usada como purificador na fabricação de vinho branco e ainda, ou melhor, principalmente, para engomar os ternos dos elegantes nas principais cidades do mundo ocidental, bem como os hábitos das freiras. As gemas eram descartadas, motivo que incentivou as cozinheiras e freiras efetuarem experimentos doceiros à base de gemas de ovos. Conseguiram. Vários doces conventuais portugueses ultrapassam a barreira dos séculos.
Hoje vou refestelar com o sabor suave dos Papos-de-anjo, que só a Joana, cozinheira e amiga de tantos anos da Lívia, que nunca foi freira e nem foi a Portugal, consegue preparar.
Seguindo as instruções de Lívia, fui até a casa da Esmeralda do Sílvio na busca de ovos. Relatam que o Sílvio, seu marido trabalha em outra cidade e não retorna para casa há anos. As doninhas do Vilarejo fuxicam que na verdade ele abandonou a família. Joana disse que mesmo não vendo o tal do Sílvio há anos, a mulher tem que conviver diariamente com a lembrança do infeliz que a abandonou com duas crianças pequenas. Não adianta dizer que prefere ser chamada apenas de Esmeralda. O povo insiste em chamá-la desta maneira, então mesmo sem o Sílvio ela será a Esmeralda do Sílvio eternamente.
Encontrei a casa sem dificuldade. Não é complicado encontrar um endereço em um lugar tão pequeno. Na medida em que passava pelas ruelas tinha o sentimento que olhar das pessoas estavam grudados em mim. – Devo ser uma criatura estranha para essas pessoas, tão acostumadas com gente apenas da região. Levei uma cesta para colocar os ovos e no fundo coloquei caixa de cartas. Queria ficar perto delas, mesmo que não fosse ler.
Bati palmas, chamei e ninguém apareceu na porta. Sentei em um banquinho bem na porta da casa e resolvi esperar um pouco, talvez a Esmeralda do Sílvio tivesse saído, se eu voltasse para casa iria perder a viagem e mais , ficaria sem os Papos-de-anjo.
Resolvi abrir a caixa e pegar uma carta para ler…

Hoje me refastelei  com uma dessas delícias de origem portuguesa: Ambrosia – receita carinhosamente passada por minha amiga Marcilene e que vou dividir daqui alguns dias.

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