escolha

– É simples, mas o quintal é maravilhoso. Vamos morar aqui!
Foi assim que a minha mãe cumpriu a missão que lhe foi destinada. Escolher a casa que iríamos viver.
No quintal, pé de manga, mexerica, goiaba, laranja e jambo cresciam frondosos, em harmonia, servindo em alguns momentos de palco para brincadeiras em outros como rota de fuga de temidas chineladas.
A casa tinha um alpendre apoiado por três estruturas: uma verde, a outra azul e por último a vermelha.Tons que, eu e minhas irmãs, adotamos como prediletos. Cabendo a cada uma delas uma cor. Vasculantes entreabertos levavam olhares curiosos dos vizinhos da direita a nossa cozinha. Nesta parte não havia muro, a própria parede da casa é que separava nossos quintais. Foi assim por muito tempo.
Mais tarde, houve mudanças, ganhamos mais um quarto, uma sala e área usada para lavar roupas foi fechada, sendo transformada na cozinha e a antiga deu lugar a uma copa.
Uma outra novidade foi a construção da garagem. O terreno ficava abaixo do nível da rua e ela foi projetada para que abrigasse o carro na parte superior e na parte de baixo as tralhas da casa: um porão. A parte de cima nunca foi terminada, o que se transformou na tormenta da minha mãe.
Quando o portão era aberto pelo meu pai para guardar o carro, um silêncio imperava na casa. Bastavam poucos segundos para identificar se ele estava bêbado.
Jeito quieto, franzino, olhar severo. Transformava-se. Chegava falante, tinha um tique nervoso. Piscava incessantemente. Repetia o mesmo caso duas, três, quarto, cinco vezes ou até a exaustão.
Ficávamos alí, mãe e filhas, escutando, numa apreensão sem fim. A qualquer momento um olhar, uma resposta que não foi dada, qualquer coisa poderia desencadear o caos. A mais velha pensava que tinha obrigação de fazer com que tudo terminasse bem. Que ele fosse acometido pelo sono e descansasse ali mesmo no sofá.
– Pai, quer um copo de leite? Posso tirar seus sapatos?
Tudo na tentativa de agradá-lo. Talvez assim, ele não ficasse bravo.
– Leuse, por que você joga as meninas contra mim? O pai gosta d’ôces filhas, quero mal de ninguém não – dizia, mostrando dúvidas ao ver que uma discussão havia sido iniciada.
Dormia um sono pesado. A gente escutava o ronco de longe.
No outro dia, poucas palavras. Em seu olhar, vergonha, e no nosso reprovação.
Um dia vi a mãe pensativa, perguntei o que era. Ela respondeu:
– Pensá que escolhi a casa por conta das árvores de frutas. Não imaginava que dava tanto trabalho. Cai muita folha no chão.

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