antes do paraíso, a consolação

Desço as escadas rapidamente, mesmo, sabendo que se perdesse o metrô não precisaria esperar mais que dois minutos. Por alguns instantes, me distraio pensando na correria da cidade.
Volto a atenção para o ambiente e noto um rapaz segurando uma mala, andando rapidamente de um lado para outro na plataforma. Na outra mão, segurava uma folha. De repente parou, olhou firme em meus olhos, mostrou a folha e disse:
– Leia!
Li e retornei com um olhar questionador, sem dizer nada. Ele ordenou:
– Leia em voz alta!
– Sim, já li. Nós dois sabemos o que está escrito aí. Devo ler isto em voz alta, por quê?
Sem pensar muito, fui falando:
– Talvez o que você escreveu seja verdade, mas é necessário manter o sistema em funcionamento.
Na folha havia uma frase: “Estou indo para meu empreguinho de merda.”
Não demonstrou muita preocupação com a resposta e logo iniciou um discurso:
– As pessoas deveriam ter mais dignidade. Não deveriam se sujeitar a míseros salários, a trabalharem de sol a sol, sem o mínimo reconhecimento.”
Mudou a expressão e com um jeito doce, perguntou:
– Você quer ir para o paraíso comigo?
– Paraíso? A próxima estação?
O vagão parou, a porta foi aberta, e antes que a campanhia anunciasse o seu fechamento ele já estava ao lado de uma moça. Aparentava mais ou menos 18 anos, com mochila nas costas, cabelos longos e uma carinha de quem acabou de acordar.
Seguindo o ritual, disse:
– Leia!
A moça meio assustada, sem pestenejar, leu. Em seguida, com o mesmo jeito doce, perguntou:
– Você quer ir para o paraíso comigo?
Sem saber o que responder, ficou com as bochechas rosadas, ensaiou um sorriso. Não disse nada.
Percebendo que teria um campo a ser explorado deu continuidade, agora com outras questões e uma ar cada vez mais sarcástico:
– Como você acha que será o mandato do Obama?
Sem obter respostas, acredito que isto era o que menos importava. Continou:
– Sabe onde fica Dubai? Lá está o maior canteiro de obras mundo. Os engenheiros usam Autocad. Você sabe o que é Autocad? O que você faz?
– Estudo computação gráfica.
– Então, você sabe o que é Autocad.
A cada pergunta chegava mais perto. A cada aproximação ela tentava se esquivar.
Mais uma parada, mesmo discurso:
– As pessoas deveriam ter mais dignidade. Vocês não deveriam trabalhar nestes míseros empreguinhos…
Não desembarcou no paraíso. Desceu na estação Ana Rosa, não antes de bater nas costas de um passageiro e questionar:
– E aí, meu amigo! Quantos tijolos vai colocar hoje?
Seguiu caminho, afinal de contas desembarcar no paraíso sem passar pela consolação não deve ter parecido muito sensato.

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