do outro lado do rio amarelo

Como quem atravessa uma porta e vai para um outro ambiente, de repente, me vi no mesmo rio, em um lugar totalmente diferente, mas no mesmo rio. Na margem direita havia uma parede de pedras imensa.  Elas eram de tamanhos irregulares, todas possuíam uma grande base que ia se estreitando até o final, formando picos, semelhante ao formato de cone.  Do lado esquerdo não se via absolutamente nada, apenas um solo arenoso, em que uma grama rala insistia em sobreviver.
Completamente sem direção, busquei a orientação do sol, que agora brilhava intenso no céu. Intuitivamente resolvi seguir para o norte. Entrei em uma das estradas que desembocavam às margens do rio.
Não sei em qual momento, acredito que o sol forte deve ter sido responsável pelo meu desmaio. Acordei ao sons de trotes de centenas de cavalos. Fiquei olhando para aqueles animais, eram completamente diferentes de tudo que eu havia visto. A estatura era baixa, pareciam pôneis, eram fortes e surpreendentemente ágeis. Em cima deles,  cavalheiros de rostos brutos. Vestiam roupas de um couro rústico em tom avermelhado.
Sinto alguém me puxar pelos braços, colocando-me em cima do cavalo.
– O que faz aqui menina?
– Procuro minhas amiga, Viviana.
Na sequência o homem ordenou para que eu me calasse. Explicou que me levaria ao seu líder. Sem alternativa, não dei uma palavra. Fiquei imaginando o que aqueles homens poderiam fazer comigo, cenas horrorosas passaram pelo minha mente.
– Chegamos.
Vi um grupo trabalhando na elaboração armas. Um senhor de cabelos grisalhos tirava leite de uma égua. Meu estômago embrulhou.
– Vamos, menina, vamos. O poderoso mandou você entrar. Gritou o homem que me pegou na estrada.
Entrei com o coração nas mãos e a cabeça baixa.
– Como você se chama menina? – falou o homem que deve ser o líder mencionado pelo cavalheiro.
– Laila Gamos.
– Nunca ouvi falar nesse sobrenome. Você sabe diante de quem está?
– Não.
Percebi que as pessoas que estavam ao redor repetiram o meu não. Falaram todos juntos, baixinho, só que de forma interrogativa. Pareciam espantadas com a minha resposta.
-De onde vem Laila que nunca ouviu falar do poderoso Khan? Questionou com voz firme.
– Eu venho de uma  Serra próxima ao Rio Amarelo.
– E o que você fazia por aquelas bandas jogada na estrada sozinha?
Respondi ao Poderoso Khan que estava caminhando, buscando uma pista onde encontrar minha amiga Viviana.  Contei o sumiço de Viviana nas águas do Amarelo e que há muitos anos atrás uma outra menina havia sumido no mesmo lugar, a Núbia.
– Agora eu tenho uma missão, tenho que resgatar a Viviana e levá-la de volta para casa.
Khan ficou pensativo, com um olhar distante. Deu a impressão que estava recordando alguma coisa. Levantou-se, puxou o lábio inferior e disse:
– Os atos de coragem conquistam o meu coração. Sinto que você tem alma de um guerreiro valente, mesmo sendo um menina.
Em um passe de mágica, o medo que estava sentindo desapareceu, começei a conversar com ele de igual para igual.
Falou que a natureza é adorada por todos os povos.  Ela tem o poder de dizimar uma população inteira, com uma tempestade, de granizo, por exemplo.  Há ainda as  doenças que matam os rebanhos e os animais selvagens. Para garantir que o solo se mantenha fértil, que a colheita seja boa, ou, que o Amarelo não inunde todas as plantações, são oferecidos presentes humanos. Acredita-se que é possível abrir os portões para que a abundância possa entrar.
– Khan, senti que o Rio Amarelo exala um forte aroma de rosas.
– Você sabe por qual razão? Ele me questionou.
– Não, não sei. Na verdade nunca imaginei que um rio pudesse exalar cheiro de rosas.
Ele explicou que o Rio Amarelo é fundamental para todos que vivem naquela região. Ele é grandioso, visto como o Senhor do Amarelo, pois todo rio é sagrado. Os rios são considerados por todos aqui como extensões e manifestações do Divino.
– Só que o Rio Amarelo é diferente dos outros rios, enquanto os demais aceitam ficar confinado a planícies estreitas, o Amarelo se recusa a ser domado, seja por montanhas, planícies ou vales.
Até aquele momento não havia respondido minha pergunta, mas não teria audácia de interrompê-lo.
– Ele despenca em quedas-d’água, corre suavemente e se revolve em ondas durante dias antes de atingir planícies mais baixas. Mostra-se indeciso, muitas vezes não sabe para onde ir, ele corre para o norte léguas, e então, corre para o sul. Como se não tivesse nenhuma intenção  de se voltar para o leste e desaguar no mar. O Amarelo é importante, porém tão tempestuoso, que precisa ser cortejado. Khan olhou fixamente nos meus olhos e mais  fez mais uma pergunta:
– Você sabe qual é o cortejo mais importante feito aos deuses?
– Não.
Mencionou que é costume acalmar o invisível Senhor do Rio Amarelo oferecendo-lhe um presente humano. – Humano? Perguntei. Ele respondeu:
– Humano, você escutou bem. Uma bela virgem é vestida de noiva e colocada em um bote de madeira, em forma de cama de núpcias, que é empurrada para dentro do Rio impetuoso, onde rapidamente some de vista.

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