a última refeição

Sentamos à mesa, eu e meu pai, e conversamos longamente. Falamos da política, dos preços que não param de subir e do trânsito infernal de São Paulo.

Ele olhava para mim de uma maneira atenciosa e ouvida. Demonstrou sua preocupação por eu não estar trabalhando, prontificando-se a me ajudar, não queria ver filha sua passando necessidade. Agradeci o cuidado, dizendo que o dinheiro não era necessário, mas  que aceitava com carinho sua oferta de oração para que eu encontrasse um trabalho que me fizesse feliz.

A vida do meu pai correu marchetada por contrastes. Jeito quieto, franzino, olhar severo. Transformava-se, após algumas horas no boteco, chegava falante, apresentava um tique nervoso – piscava incessantemente. Repetia o mesmo caso duas, três, quatro, cinco vezes ou até a exaustão. Nesses momentos, qualquer coisa poderia desencadear o caos.

No outro dia, evergonhado, cuidava da horta. Mexia e remexia na terra, avaliava o crescimento das plantas. Talvez, numa tentativa de construir algo que não precisasse desconstruir.

Enquanto o almoço era servido, perguntei sobre sua carreira. Foi bonito vê-lo  descrevendo sem pesar e nem reserva seus primeiros passos profissionais, sua habilidade como desenhista mecânico e a dura vida de um gerente de fábrica. Sentiu-se valorizado por alguém se interessar pelo seu trabalho.

O trabalho, para ele, sempre foi sagrado, em nome dele e por ele abria mão de entregar-se ao princípio do prazer. Dessa forma, a sobriedade imperava quando ele trabalhava na semana de 14:00 h às 22:00 h o que nunca acontecia na semana de 06:00 h às 14:00 h

Essa estabilidade do instável, fez com que sua relação com a família fosse permeada por culpa, ressentimentos e por doses de ausência.

Olhando para trás, vejo que o desejo de compreender o universo do trabalho e a importância dele na vida das pessoas foi imperativo na escolha da minha profissão.

Ouvir meu pai dizendo sobre o ambiente organizacional há 40 anos em uma fábrica, a insatisfação por falta reconhecimento e o sentimento das pessoas diante de uma avaliação sem critérios em um processo de promoção, foi muito enriquecedor. Confirmou a minha percepção que trabalhar é um elemento estruturante na vida das pessoas. É fonte de prazer e, também, de sofrimento.

Quando foi indicado para que eu me servisse mais uma vez, aceitei sem cerimônia. Só pedi para dividir o pedaço de bife, pois não gosto muito de carne vermelha.

Neste instante, meu pai lançou-me um olhar orgulhoso, demonstrando uma surpresa conhecida, reconhecendo-se em mim; “- É igual ao pai!”

Levantamos e fui cumprir o ritual de visitar sua horta, ver um repolho, ainda aberto, em processo de crescimento, a parreira de chuchu, a couve verdinha e todo o seu afeto crescendo de modo destemido em forma de verduras e legumes.

Na despedida, agradeceu-me a visita com um olhar longo e profundo. No portão com um ar de prelúdio, fiz promessas de voltar mais vezes.

No momento que cresci como filha e pude entender a fragilidade e pontos fortes do meu pai, e  ele como pai cresceu e se reconheceu em mim, comungamos a nossa  melhor e  última refeição.

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6 comentários sobre “a última refeição

  1. Nós mudamos nos encontros, onde temos a oportunidade de transformar e ser transformados. Grande parte do nosso crescimento, e auto conhecimento dar-se-a quando aceitamos o quão somos pequenos, ínfimos diante das nossas próprias fragilidades e dos outros.
    Num passado recente estava assistindo um canal de TV a Oprah, disse que entrevistou mais de trinta mil pessoas e que todas só queriam uma coisa só: SEREM ACEITAS. ” Faça isso em casa. Diga a seu marido, a sua mulher, aos seus filhos. Eu aceito voçê, como voçê é”.
    Que o nosso Pai, descanse e seja aceito em qualquer dimensão que ele estiver.

  2. Oi Adriana, muito lindo, chorei muito pois me fez lembrar muito do meu pai que ja se foi, de e esta tocando violino com oa anjos no céu pois ele sempre foi um ser humano muito especial. Ele foi professor a vida inteira e com isso não tinhamos muito contato, mas com a idade ele foi mudando e a minha relação com ele tambem, ficamos muito amigos e isto é muito importante na relação pais e filhos. Ele que me ensinou o seguinte “aceite-se como é, que os outros te aceitarão e te respeitarão como ser humano”.
    Lindos os seu contos e as receitas nem se fala.
    bj no coração

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