armarinhos vila rica

Lugar que desde sempre teve ar de bucólico e onde se encontrava um pouquinho de tudo. Nas laterais havia vitrines com brinquedos, caixinha de lenços, jogo de damas, bonecas, canetas, escova de cabelo, meias masculinas, talco Alma de Flores, entre outros objetos disfarçados de lembrancinhas. Serviam para demonstrar o carinho nos dias das mães, dos pais, nos aniversários e até mesmo no natal.

Logo na entrada da loja existia um suporte com vários tipos de plásticos, divididos em rolos que iam do xadrezinho de azul e branco, de bolinhas vermelhas aos de motivos florais, até chegar ao transparente, este ficava por último quase esbarrando no chão. Eram vendidos por metro e sirvam para encapar os cadernos ou forrar a mesa da cozinha.

Nos fundos, existiam dois balcões de madeira que abrigavam uma infinidade de botões para atender os mais variados gostos e necessidades. Pequenos, grandes, redondos, transparentes, coloridos, lisos, ásperos, translúcidos, de pressão e forrados. As linhas, em carretéis curtos, médios ou longos, para bordar, fazer tricô ou crochê, eram dispostas em cores clássicas em uma gama de cores que iam do vermelho profundo passando pela uma combinação de tonalidades que pareciam ser infinitas até chegar ao violeta. Missangas, rendinhas, tiras bordadas, fitas de cetim, de algodão e sianinhas completavam o pequeno universo mágico do Armarinho Vila Rica. Local predileto das costureiras, donas de casa e das crianças.

Uma pequena porção deste universo poderia ser encontrado nas gavetas da máquina de costura Singer da minha mãe. Não era raro ficarmos de olhos arregalados vendo o espetáculo acontecer logo ali na nossa frente. Retalhos, sobras de tecidos entravam embaixo da agulha e as mãos habilidosas da mãe em sintonia com o pé no pedal faziam surgir do outro lado, como em um passe de mágica, roupinhas para as bonecas, bainhas de calcas e roupas que precisavam de um remendo.

O tempo foi passando e as costureiras perderam seu prestígio. Ir até uma loja, escolher o tecido que daria melhor caimento, conseguir uma forma de apresentar o modelo para ser confeccionado, fazer a prova pelo menos duas vezes, tudo isso passou ser muito trabalhoso. Não cabia mais no ritmo de vida das pessoas. As lembrancinhas que antes se passavam por presentes não despertavam mais o desejo. A máquina Singer tão presente na maior parte das casas, virou um móvel encostado no canto tendo a serventia de mesa ou apoio para bagunças ou livros escolares. Os cadernos já não são mais encapados, ao contrario bonito é deixar a capa a vista, e ela se tornou dura e resistente o suficiente para aguentar o ritmo intenso das crianças nas escolas. Encontrar pessoas fazendo crochê, tricô ou com destreza para fazer uma banhinha, trocar um fecho éclair, tornou-se coisa rara de se ver.

Tentando sobreviver a toda essa mudança de estilo, o Armarinho ficou aberto por muito tempo. Foi triste ver aquela senhorinha sentada no fundo da loja, neste momento já sem o seu marido e companheiro inseparável de trabalho, as luzes apagadas até umas quatro horas da tarde para economizar energia, esperando que os fregueses entrassem na loja. Coisa que ficou cada vez mais difícil de acontecer.

Um dia passei lá, e as portas estavam fechadas.

Algumas lembranças são como o perfume da manga nunca saem da memória.

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2 comentários sobre “armarinhos vila rica

  1. Quantos armarinhos… quantos bazares… quantas pequenas papelarias… quantas quitandinhas não tiveram o mesmo fim.
    Triste como as grandes redes acabam com esses mimos e cuidados que só os pequenos proprietários podiam oferecer né?

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