receitas, um registro do presente

Wagner,

Escrever uma receita é muito mais que descrever orientações de preparo de pratos. As receitas nunca são anônimas e registrá-las é um ato de amor. Uma  forma de replantar gestos de tias que preparam um bolo com gosto especial, de perpetuar o sabor de um delicioso pão da vizinha,  de tentar repetir o jeito de preparar o feijão que só a vó é capaz, de dividir uma maneira só nossa de preparar uma sopa.
Nas letras de uma receita não há apenas uma descrição de ingredientes e jeito de preparo, as letras transformadas em palavras existem em formas de oração,  sempre pontuadas de impressões que permanecem intactas em nossa memória afetiva.
Ao preparar uma receita, muitas vezes, a gente consegue em uma fração de segundos resgatar o cheiro do quintal lá da infância, do aroma de doces a pronunciar, do almoço caprichado aos domingos, das conversas à beira do fogão,  do acolhimento amoroso e preocupado da mãe – está com fome? Tudo revivido em momentos únicos e preciosos que só a comida é capaz de proporcionar.
Um olhar atento em uma  receita revela os gostos de uma época, o estilo de vida, a reunião de texturas e sabores que são transmitidos de geração em geração.
Cada manuscrito reverte de combinações e maneiras de preparo, que resultam em diferentes pratos e paladares. Toques, segredos são registrados, passados e repassados através de um saber feminino. Sim, cozinhar é feminino! O mexer nas panelas transforma alimentos em comida. Comida que alimenta o corpo e alma. Por isso, mesmo, que seja pelas mãos de um homem, cozinhar sempre será uma ação do feminino.
Nos fundos de uma cozinha ingredientes são ordenados e combinados, no momento de ir para a panela, os tempos, os modos de preparo, os enfeites, as misturas e a disposição dos pratos. Esse conjunto expressa uma estrutura, e apresenta-se como uma gramática culinária que permanece apesar do tempo.
Uma receita é uma herança textual de desejos e gostos capaz de cristalizar uma data que não é de esquecer,  e sim de alargar momentos vivenciados em horas doces e luminosas em torno da mesa.
Para que os momentos bons sejam revividos é que registro o presente em gestos, imagens e receitas. E um dia à luz de uma cozinha afetiva poderemos  reproduzir e alcançar a essência dos sabores.

Registrando uma receita lá de casa: Feijão Tropeiro

Adriana 

Um pouco de história: 

A palavra tropeiro deriva de tropa, numa referência ao conjunto de homens que transportavam gado e mercadoria do Rio Grande do Sul até os mercados de Minas Gerais, na época do Brasil colônia.

A alimentação dos tropeiros era constituída por toucinho, feijão preto, farinha, pimenta-do-reino, café, fubá e coité (um molho de vinagre com fruto cáustico espremido).

Nos pousos eles comiam feijão quase sem molho com pedaços de carne de sol e toucinho que era servido com farofa e couve picada. Assim surgiu a original receita do feijão tropeiro, prato simples, composto de alimentos não perecíveis que podiam ser carregados por longos dias de viagem, e preparados por homens em acampamentos improvisados.

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2 comentários sobre “receitas, um registro do presente

  1. Excelente este post. Lindo! Tenho um blog que fala de Cozinha Afetiva (www.cozinhaafetiva.com.br). Gostei muito do Blog. Se liberar posso reproduzir no nosso blog com link para o Sabor Com Letras. Parabéns!!

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