comunhão

O dia prenunciava algum acontecimento importante:
– Mãe, no próximo sábado será minha primeira comunhão – falei de supetão, tentando passar naturalidade para não demonstrar que havia me esquecido que faltavam apenas sete dias.
– No próximo sábado? Tem certeza? Como você não me avisa isso antes, minha filha – respondeu minha mãe, quase em pânico.
– Desculpa, mãe, esqueci!
– Como você foi esquecer uma coisa dessa? É um dia muito importante – falou com reprovação.
Saímos no meio da tarde para escolher o tecido. O vestido tinha que ser branco, mas eu não quis vestido. Pedi para mãe deixar eu  fazer uma saia no mesmo modelo de uma que eu já tinha. Doação de uma menina lá do interior, modelito que eu adorava. A saia era em camadas, separadas por tiras bordadas, sendo uma parte verde-água e a outra de lese branca. Sem muito tempo para discutir ela autorizou, só fez uma exigência que fosse tudo branquinho, branquinho. Aceitei, compramos o tecido.
Fomos direto para a costureira e lá definimos o modelo da blusa. Ela seria de manga fofadinha com fita para dar um laço e na frente um emaranhado de fitas de cetim brancas que se cruzavam formando algo parecido com um tabulheiro de xadrez meio de lado.
Após uma longa explicação que a mãe teve que dar a costureira, na tentativa de sensibilizá-la a cumprir o curtíssimo prazo, em função da minha distração aguda. Saímos de lá com a garantia que na data marcada, eu faria a prova e levaria a roupa para casa.
Ao chegar em casa encontrei com uma amiga na rua que fazia catequese comigo. Contei sobre o que havia acontecido, para minha surpresa decobri que além de ter esquecido e errado a data da primeira comunhão, também não me lembrei que naquele dia seria a primeira confissão. Sem ela, não poderia comungar.
Fui correndo atrás da mãe para contar mais um esquecimento.
– Você tem a cabeça na lua? Não presta atenção nos recados da professora? O que acontece com você?          – esbravejou, sem nenhuma paciência com tanta falta de atenção.
– Não sei o que houve, acho que não fui a aula no último domingo e fiquei meio confusa. Briga comigo não, mãe – respondi de cabeça baixa.
Conformada que a sina de todas as mães é padecer no paraíso. Lá foi dona Marineusa correndo para a igreja para que eu pudesse fazer a confissão.
Chegando lá, num afobamento sem fim, não sabia o que deveria confessar, quais seriam os meus pecados. Falei algumas coisas porque tinha que dizer algo. O padre insistiu mais um pouco, talvez imaginando que eu estivesse com vergonha de dizer algum segredo inconfessável. Não adiantou muita coisa. Naquele momento e com aquela idade não saberia nem diferenciar o que seria um pecado de uma travessura. Ele mandou que eu rezasse algumas ave-marias e pai-nossos e me disse que a primeira comunhão seria no próximo mês.
Fui rezar para que Deus perdoasse as minhas travessuras identificadas como pecados pelo padre. Aproveitei a oportunidade para pedir que minha mãe não ficasse furiosa comigo por fazê-la correr tanto, sem necessidade. Isso sim, era um pecado.

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