escrita

Engraçado como a gente só consegue sentir, verdadeiramente, a textura de cada experiência quando se afasta da situação vivida. Sempre tive comigo a certeza da não participação do meu pai na minha infância. Não me lembro dele me ensinando uma lição, levando a gente para passear em um parque, contando uma história. De um tempo para cá, comecei remexer nas gavetas mentais que criamos para guardar os medos miúdos, as memórias afetivas, as angústias reprimidas, os sonhos adormecidos.
Lá encontrei muita coisa. Achei lembranças com gostinho de garapa. Descíamos com ele aos domingos para fazer a feira. O carro ficava no pé do morro, e a gente ia passando pela rua, ajudando escolher o quiabo, as batatas, os tomates. Chegávamos na barraca de caldo de cana. Eu tomava um copo cheio. Quase não dava conta de beber tudo.
Havia lembranças com sabor de ovo, ovo quente. O pai conseguia deixá-los no ponto. Fazia um furo na parte superior, o suficiente para que a colherzinha de sobremesa pudesse entrar. Salpicava farinha de mandioca bem torrada e uma pitada de sal. Primeiro, eu ia tirando a gema, deixava por último a clara, que ficava grudada no interior da casca do ovo, macia, gostosa, branca, cor de nuvem.
Outras tinham gostinho de café com queijo. O café tinha que ser feito na hora e um pedaço de queijo minas era colocado dentro do copo americano. Ia tomando o café com gostinho de queijo e no final comia o queijo que ficava encharcado de café.
Havia algumas com sabor de amendoim inchado. A gente colocava um punhado de amendoim dentro de um copo com água ao lado do filtro. No outro dia o amendoim já havia sugado toda a água, ficava macio, novinho.
Descobri recordações com cheiro de cera. Ajudávamos o pai a lavar o carro, um Fusquinha, cor de café com leite, 68. A gente brincava dizendo que o carro ia para o museu. Ficou com ele muito tempo, mais de 30 anos.
Encontrei memórias com raízes entranhadas na terra fofa, adubada. Essas lembranças eram verdes e vinham disfarçadas de cebolinhas, salsinhas, couve-manteiga, alface. Todas bem cuidadas, regadas e acarinhadas. Não podiam receber água no meio da tarde. A rega tinha que ser na primeira hora da manhã ou no pôr-do-sol.
Deparei-me com lembranças de fé escritas com letra de forma, a mais bonita que já li, os contornos bem desenhados. Ficava ali em alguns momentos questionando se o pai tinha memória fraca, pois todos os dias, antes de dormir ele lia a Oração de São Jorge: – Será que não conseguia decorar? – eu pensava. Cresci vendo aquela cena, durante anos e anos. Fizesse chuva, sol, dormindo cedo ou tarde, embriagado ou sóbrio. Sempre lia a oração. Depois de muito tempo resolvi digitar a oração, plastificar e entregar para ele de presente, a dele estava velha, amarela, colada com durex. Nas dobras formaram um sulco, de tanto abrir, fechar e dobrar de novo. Recebeu com carinho a gentileza apresentada, em seguida, falou: – Não ficou ruim, não, mas tá faltando uma palavra aqui – disse apontado no papel. Descobri que não era dificuldade de memorização. A leitura fazia parte do ritual.
Foi assim, passando os fichários imaginários, percebi que a certeza de não participação, não significava ausência, falta de amor. O jeito dele de passear, de contar histórias, de ensinar, de ser pai, era escrito de uma outra forma. As letras eram ilegíveis, naquele momento, para todas nós.

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7 comentários sobre “escrita

  1. Adriana,
    Tenho orgulho de todas as descobertas que fizemos juntas, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos, lagrimas e momentos que compartilhamos. Você é especial em minha vida e se algum dia pudesse escolher novamente em qual família gostaria de ter outra oportunidade elegeria você como irmã de novo.
    Te amo.
    Flávia Marques.

  2. Adriana, que texto lindo..Me identifiquei muito, principalmente com a história do ovo, da feira…me fez relembrar minha infância! Seu Blog já está em um dos meus favoritos.Acabei de chegar do trabalho, já é madrugada e sabe o que me deu vontade de fazer? O seu Bolo de Iogurte.Tô indo pra cozinha já! rs
    Obrigada por visitar meu Blog tb, volte sempre! Um abraço,
    Marleide

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