o broto da rosa

Falei com propriedade de uma velha jardineira:

– Sabia que se a gente plantar um galho de rosa ele brota?

Com os olhos brilhantes de quem acabou de desvendar um mistério, Flávia respondeu:

– É mesmo?

– Verdade – confirmei com a cabeça e sorri.

– Vamos pegar uma muda lá na casa da Dona Benta – sugeriu, Flávia.

Chegando em casa, escolhemos um lugar na frente da casa para plantar nossa muda de rosa. Fizemos um circulo, arrancando a grama para deixar nossa roseira se desenvolver livremente, sem sufoco.

Como pressa não é característica de roseira, vagarosamente ela ia se desenvolvendo. A cada avanço dividíamos uma com a outra um crescimento quase imperceptível.

Após algumas semanas, de muito sofrimento e espera, começamos a ver os primeiros brotinhos surgirem daquele galho fincado no meio da terra. Foi  emocionante presenciar como algo podia despontar de maneira sutil e tímida, manifestando vida.

Um dia o broto transformou-se em pequenas folhas, e aos poucos elas se abriram, em tom vinho, frágil. A roseira começou tomar corpo de flor que  iria perfumar nossas almas e olhares.

Não consigo me lembrar de qual maneira, mas sei que a Flávia me irritou profundamente. Minha reação foi de raiva. Reação, sim, essa eu nunca esqueci. O primeiro impulso foi de revide e  para isso precisaria magoá-la. Não tive dúvidas fui até a roseira e passei ao ato. Coloquei as palmas das mãos na terra e fiz movimentos para frente e para trás para abalar a base da planta. No fundo queria arrancá-la de lá, não tive coragem.

Quando a Flávia viu a cena, entrou em desespero:

– Não faça isso, por favor. Não destrua tudo assim – falava, tentando me impedir.

Lágrimas corriam do rosto dela, um choro sentido, de perda.Tarde demais.  Meu coração ficou pequeno ao vê-la assim, mas não tinha volta.

A roseira não resistiu a tal violência e a donzela cor-de-rosa que enfeitaria o nosso gramado não desabrochou.

Hoje tenho comigo a certeza de ajudar a Flávia  plantar um jardim, sinto-me sempre devedora. Os brotos estão crescendo, dessa vez fortes, e nutridos por um amor tão sincero que faz meu coração apertar.

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3 comentários sobre “o broto da rosa

  1. Sabe? Eu tenho alma de jardineira, meu micro jardim é uma paixão para mim.
    As rosas são a minha ultima aposta, tenho uns 3 ou 4 pézinhos.
    Espero que esta cumplicidade que sinto quando leio as suas palavras, seja como os brotes que vão crescendo fortes neste jardim de sabor com letras.
    Beijinhos

  2. Querida Adriana
    Obrigada pela visita e pelo seus comentário muito carinhoso. Cuidar bem das coisas é o segredo e você sabe muito bem disso.
    Amei seu site e vou, com mais calma, olhar tudo em breve.
    As fotos são lindas!
    Amei “cozinhar não é obrigação, é uma forma de amar os outros”. Eu sempre falo que gosto de cozinhar para quem amo.
    Parabens!
    Um grande abraço
    Aurélia
    http://www.adeaurelia.com.br

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