maio 15, 2012

creme de batata para aquecer

serve 4 pessoas gulosas

ingredientes

500g de batata
200g de peito de frango em cubinhos
100g de bacon em cubinhos
200g de creme de leite fresco
1 colher de sopa de cebola ralada
oléo de soja
uma pitada de noz moscada, açafrão e pimenta do reino branca
sal para temperar

jeito de fazer

  • Tempere o frango com sal e doure em um fio de óleo de soja. Reserve
  • Frite o bacon sem óleo até ficar crocante. Coloque em cima de toalha absorvente.Reserve.
  • Descasque as batatas e pique em pedações. Coloque em uma panela, coloque as batatas  com apenas  água que elas fiquem imersas. Adicione a noz moscada, açafrão e a pimenta do reino branca  Cozinhe até ficar macia.
  • Retire a batata do fogo e coloque com a água do cozimento. Reserve.
  • Em uma panela, coloque um fio de óleo e doure a cebola. Acrescente o creme de batata. Junte o frango.
  • Mexa delicadamente até levantar fervura. Acrescente o creme de leite e continue mexendo até começar a ferver.
  • Tempere com sal.
  • Junte por último o bacon e retire do fogo.
  • Sirva com pão para aquecer a alma e acalentar o coração em tempos de guerra ou paz.
maio 15, 2012

meu olhar em guerra e paz

O olhar da guerra é azul noite que invade e devassa o universo.
É dor que brota no mar de filhos dissecados em busca de vida nos braços das mães.
São meninas moças que não querem ver, ouvir, falar e sentir a lacuna fina e profunda marcada pela falta.
A guerra estampa o padecimento cristalino em despedidas sentidas, sem volta.
Ela chega através dos cavalheiros que carregam a simbologia da fome e do sofrimento eterno.
A guerra cruza a morte adornada em roxo melancólico sem desviar.
É formada de súplicas para o fim do mal que corrói a alma.
Tem como pilar os arquétipos da agressão e da covardia revelados em felinos ávidos e na hiena cínica.
O olhar da guerra é sentencioso e ausente.
É um atalho sombrio à custa de direitos alheios.
É licencioso de amor.
É o finamento da dignidade.
O olhar da paz…
Ah! O olhar da paz é um retrado revelado em cores solares.
É leve.
O olhar da paz é um espantalho na lavoura.
É amor colhido em forma de cana-de- açúcar em campo fértil.
É canto melodioso dos meninos de todos os cantos em uma língua universal.
É o laranja no vestido que vive amanhecendo da moça que tem um futuro para desvendar.
A paz vive nas memórias afetivas guardadas em caixas com fitas de cetim.
No vento batendo nos rostos dos meninos.
No sobe e desce da gangorra.
Nas brincadeiras dos tempos de meninice.
Na juventude vivida.
No cavalo da folia de reis.
A paz mora no passeio do homem com o filho na cacunda.
No pai ensinando lições de vida.
E no menino vidrado em seu brinquedo.
Nas mães com seus filhos nos braços cheios de vida e futuro.
Nas famílias.
Ela reflete uma noiva com vestido azul céu de tão alvo, montada em um cavalo branco, agarrada ao seu amado e à promessa infinita de uma vida inteira.
O olhar da paz é pintado em matizes douradas e marchetado pela música, pelo sol morno, pelo trabalho, pelo cheiro da terra, pela comida.

Inspirado em Guerra e Paz, Portinari. Exposição até 20/05/2012 Memórial da América Latina. Vale a pena. É emocionante. 

maio 6, 2012

manga com biquinho sedutor

serve 12 pessoas nada formigas

ingredientes

ganache cremosa de chocolate

170g de chocolate meio amargo
200g de creme de leite fresco

ganache de manga

1 manga bem perfumada
2 pimentas biquinho
130g de chocolate branco
40g de creme de leite fresco
15g de sumo de limão siciliano

jeito de fazer

ganache cremosa de chocolate

  • Pique o chocolate em pequenos pedaços e derreta em banho- maria, mexendo delicadamente com uma espatula de silicone ou com uma colher de pau. Não use fouet ou batetor de arames para não criar ar. Retire do fogo e acrescente o creme de leite e misture até obter um creme liso e brilhante.

ganache de manga

  • Descasque a manga e corte em tiras ou pequenos pedaços, leve ao liquidificador com o sumo do limão bata até formar uma pasta de manga. Reserve 200g da pasta de manga e o que sobrar use na decoração.
  • Pique o chocolate branco em pequenos pedaços e derreta em banho-maria, mexendo delicadamente com uma espatula de silicone ou com uma colher de pau. Não use fouet ou batetor de arames para não criar ar.
  • Retire do fogo e acrescente o creme de leite, misture até ficar homogêneo. Junte a pasta de manga e misture até ficar tudo incorporado.
  • Corte as pimentas biquinhos em dois e retire todas as sementes. Pique em pedaços minúsculos e junte à ganache de manga. Se preferir use apenas na decoração. Reserve.

montagem

  • Em tacinhas ou copos pequenos coloque a ganache de chocolate. Leve à geladeira por uns 15 minutos ou até que termine de preparar a ganache de manga.
  • Coloque a ganache de manga e por cima e acrescente a pasta de manga separada para decoração. Salpique tiras fininhas de pimenta biquinho.

Passe um batom vermelho sensual e sirva em uma taça essa iguaria ao seu amado, mesmo depois de muitos anos juntos, ele não vai resistir ao seu encanto.

maio 6, 2012

matrimônio

Preparei bolos
de limão, fubá, coco.
Esperava de maneira sentenciosa a aprovação.
Inventei poção para aguçar os sentidos,
juntei às mais variadas massas
para aguçar o paladar.
Desfolhei livros.
Fiz e refiz receitas .
Nenhuma textura agradava meu amado.
Usei ovos inteiros.
Bati claras em neve à mão.
Alterei o açúcar cristal para mascavo
e lancei mão até do orgânico.
Fiz questão de ovos caipira,
garanti que na etiqueta houvesse descrição
que as galinhas viviam soltas.
Apelei para os raros ovos azuis esverdeados.
Coloquei o perfume da banana com canela,
do maracujá e da laranja.
Reproduzi receitas com promessas
de conquistar corações.
Aromatizei com rum, pinga, conhaque.
Escutava com tristeza o julgamento
que os meus bolos estavam
menos fofinhos e
mais secos que os bolos Bauducco.
Entrei em desespero.
Será que perdi a mão?
Pode finalmente a indústria ter conseguido
reproduzir em série o perfume e o sabor do
bolo feito em casa?
Será que agora esse item precioso
pode ser encontrado, em embalagens a vácuo,
nas prateleiras vulgares de supermercados?
Inconformada, não sucumbi.
Peguei um livro de Cora Coralina
ao lado abri o meu moleskine de Receitas Especiais
Pré-aqueci o forno.
Recitei os ingredientes como quem diz poesia.
Misturei tudo o que sabia sobre bolos e amor,
acrescentei à massa e bati delicadamente.
Enquanto o bolo assava,
só por precaução,
li em voz alta uma poesia.
Tudo pronto.
Com o coração na boca e o bolo nas mãos,
segui o ritual.
Levei ao meu amor,
que se fartou.
À noite disse que eu cheirava a bolo.
Me senti sensual.

Bem que o Héctor Abad escreveu em seu Livro de Receitas para Mulheres Tristes: “ Só os bons poetas nos curam do fastio de palavras. Só a comida simples e essencial nos cura da saturação da gula.”

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abril 29, 2012

beliscão de goiaba para celebrar

rende 30 unidades

ingredientes

175 g de manteiga sem sal
100g de açúcar
2 gemas
300 g de farinha de trigo;
raspas de ½ tangerina
200 g de goiabada cascão

jeito de fazer

  • Bata a manteiga e o açúcar na batedeira com a pá raquete e adicione as raspas de tangerina. Cuidado para não bater demais e deixar a mistura mole.
  • Adicione as gemas e bata por mais 1 minuto. Acrescente a farinha e continue batendo até homogeneizar os ingredientes.
  • Leve a massa coberta com um filme plástico para a geladeira. Depois de 20 minutos, divida a massa em 30 partes iguais em formato de bola.
  • Corte a goiabada em 30 partes iguais, no formato de retângulo.
  • Achate as bolinhas e coloque um pedacinho de goiabada no centro de cada uma. Dê um “beliscão” na massa para fechar as laterais, deixando as pontas abertas para a goiabada ficar visível.
  • Coloque em uma assadeira e leve para assar em forno preaquecido a 180°C por aproximadamente 25 minutos.

A Helena  chegou ao Brasil e se encantou com as nossas frutas tropicais.  Buscou inspiração na revista Casa e Jardim, foi para cozinha e mesmo um forno bem diferente que estava acostumada a usar conseguiu fazer um dos seus primeiros experimentos culinários em nossas terras.

Eu, que amo Beliscões de Goiaba, fiquei motivada a reproduzir a receita. Fiz  recentemente e ficou simplesmente maravilhosa. Quase não sobrou para tirar essa foto foram devoradas pelo Léo.

Escolhi essa receita, que nas minhas mãos ganhou o perfume de tangerina, para fazer referência ao primeiro aniversário do Sabor com Letras, pois ontem na casa da Helena, que hoje já está super instalada e produzindo coisas maravilhosas que podem ser apreciadas aqui, compartilhamos receitas, dividimos experiencias e aprendizados em torno do fogão, tudo regado a muito açúcar e amêndoas. Saí de lá entendendo claramente o que Ruben Alves quis dizer quando escreveu:

” Na cozinha se aprende a sabedoria essencial para a vida. A pura utilidade alimentar, essencial à sobrevivência, pela magia da culinária, torna-se arte, brinquedo, fruição, alegria”. 

Carol, minha sobrinha que possui fator fofura número 1000, vai receber uma caixinha de Beliscão de Goiaba para participar da festa.

Além disso, o Sabor com Letras em seu primeiro aniversário ganhou uma logomarca feita pelo meu amor, que pacientemente tira  99% das fotos do blog e conhece bem de perto a essência, o significado e a importância desse espaço para mim.

abril 29, 2012

encontro marcado no sabor com letras

Escrever no Sabor com Letras é um encontro diário – já explico: quando escrevo memórias afetivas e gustativas que permeiam minha vida, encontro comigo em vários momentos, revejo pessoas, lugares, sentimentos e sabores. Esse encontro mostra como posso ser tantas em apenas uma, como tudo que está vivo, e em constante movimento.

O preparo de receitas, de cenários e os registros dos meus pratos, aproximam-me, cada vez mais do meu amor. É tão bom, o aroma da comida pela casa, a gente discutindo como será a foto, os paninhos, as redinhas que vão compor a cena, o momento de experimentar o prato e  as promessas de diminuir a comilança. Tudo em comunhão e afeto.

Em muitos momentos, encontro com amigos, com minha mãe, meu pai, a sobrinha querida e minhas irmãs que se emocionam com recordações e relatos vividos.

Há encontros com pessoas que, muitas vezes, sequer conheço o rosto, mas  aos poucos vou descobrindo seus gostos culinários, sabendo das receitas que dividiram com seus. Desses encontros vão surgindo amizades gostosas, através do compartilhamento de intimidares no fundo da cozinha, de trocas de comentários atenciosos.

Apesar de perdas e momentos difíceis que tive em 2011,  esse último ano teve muita coisa boa, ele foi permeado de sabores e muitas letras, conheci muita gente bacana e visitei muitas cozinhas ao vivo e virtualmente. Divido com vocês referências de pessoas e  lugares muito especiais que transbordam a essência do Sabor com Letras.

Bruna faz tudo com atenção caprichosa, pensando em cada detalhe e como eu acha a Casa Santa Luzia o máximo.

Carolina que permeia as memorias afetivas de sua filha, Margarida, com sabores, perfumes e delicadezas em forma de bolos, salgados e doces. Tudo registrado no Caderninho de Receitas.

Eli, a moça que adora comer por aí, divide vários sabores e compartilha a receita mesmo quando algo não sai dentro do esperado.

Família Antunes que transforma a cozinha em um diário de aventuras culinárias entre quatro paredes ou  em doze rodas.

Helena que faz fotografias que alegram o olhar, o paladar e o coração. Nos conhecemos há pouco tempo, por intermédio da querida Mané,  mas parece que somos amigas de longa data. A identificação surgiu pelo gosto dos sabores que em  seu espaço tem perfume de canela e afeto.

Lu tem em sua cozinha um macarrão de forno maravilhoso em forma de gentileza.

Mané consegue surpreender com uma geléia de morangos, coentro e poesia.

Moira capaz de criar um verdadeiro desafio mobilizando a blogosfera a elaborar uma Receita para Maria , com poucos ingredientes para apoiar uma amiga que foi para o Timor Leste como voluntária das Nações Unidas em condições precárias para cozinhar. Uma forma de trazer um pouco mais de sabor, afeto e cumplicidade para alguém que se dispõe a fazer tanto pelo outro.

Susana que acredita na amizade partilhada à mesa, tem um guardião em uma linda horta e inspirou minha cozinha com uma delicadeza em forma de livro.

Tertúlia Pão de Queijo um encontro que resgata as raízes e o imaginário desse lugar lindo que é Minas.  Lá, encontra-se,  sempre,  um dedo de prosa com gente da melhor qualidade, café fresco, pão de queijo e, claro, muita poesia.

E tantas  pessoas que não estão nomeadas aqui, mas estão todas no meu coração.  Quero que  se sintam todas convidadas para essa comemoração.

Espero que 2012 seja o primeiro  ano de muitos encontros partilhados com muitas letras, gente e sabores, a final, cozinhar não é uma obrigação é uma forma de amar os outros!

abril 14, 2012

muffins de frutos silvestres com cheiro de amburana

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essa receita rende 26 porções

ingredientes

300g de farinha
370g de açúcar orgânico
1+ ½ colher de chá de fermento
½ colher de chá de bicarbonato de sódio
350ml leite
1+ ½ colher de sopa de sumo de limão
1 ovo caipira
70g de manteiga derretida
12 sementes de amburana
250g de frutos silvestres

jeito de fazer

  • Misturar bem o leite com o sumo de limão, deixar repousar à temperatura ambiente por 15 minutos, até talhar.
  • Pre-aquecer o forno a 180º. Colocar as forminhas de papel dentro das formas dos muffins.
  • Numa tigela, juntar a farinha, açúcar, fermento, bicarbonato de sódio. Misture bem e reserve.
  • Em uma panela, coloque a manteiga e as sementes de amburana, em fogo baixo, derreta a manteiga. Desligue o fogo e deixe as sementes por 15 minutos para que a amburana possa aromatizar a manteiga. Após esse tempo descarte as sementes de amburana e reserve a manteiga.
  • Adicione ao leite, o ovo e misture.
  • Junte a mistura do leite à farinha, mexa até formar uma massa homogênea.
  • Adicionar aos poucos a manteiga derretida, bata até obter uma massa homogênea e suave.
  • Encha as forminhas de papel com massa até 2/3 da altura. Em cada forminha, colocar de 3 a 5 framboesas ou amoras sobre a massa.
  • Levar ao forno, por volta de 35 a 40 minutos ou até ficarem firmes e dourados (teste do palito no centro bolo), retire do forno, deixe esfriar um pouco e desenforme.
  • Depois de frios, se desejar polvilhe com açúcar de confeiteiro.
  • Sirva com chá de hortelã bem quentinho escutando o bem-te-vi anunciar o fim da tarde.
  • Andrea do Baunilha e Caramelo produziu a receita de seu Muffin de Amoras Silvestres para anunciar uma mudança no blog. A receita que foi retirada do livro The Hummingbird Bakery Cookbook ganhou, em minhas mãos, o perfume dos trópicos, através do cheiro da amburana.

    Sementes compradas em uma visita deliciosa ao Mercado da Lapa com André, Carmen e Helena.

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abril 14, 2012

tempo de muda

“O senhor… mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou.”

João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa inspira na cozinha, lugar onde se faz poesia, para mudar um receita e deixá-la com o cheiro do nosso Brasil.

abril 6, 2012

goiabada com cheiro de saudade

ingredientes

1kg de goiaba vermelha
200g de açúcar mascavo
150ml de água
150ml de sumo de tangerina

jeito de fazer

  • Lave as goiabas, elimine as extremidades e descasque. Pique as goiabas e coloque no copo do liquidificador com 150ml de sumo de tangerina. Bata por 1 minuto e despeje em uma peneira grossa. Reserve.
  • Disponha em uma panela o açúcar com 150ml de água. Cozinhe, sem parar de mexer, até o açúcar dissolver e começar a ferver.
  • Junte a polpa da goiaba. Continue a cozinhar, sem parar de mexer, por volta de 1 hora.
  • Quando a goiabada começar a soltar do fundo da panela e parar de espirrar, retire do fogo.

A goiabada é um doce típico da comida caipira e consumido em quase todo o mundo. A goiabada surgiu no Brasil quando a goiaba foi usada pelos colonos portugueses como substituto para confeccionar a marmelada. Saiba mais

Meu pai, sempre gostou de comida simples, feita em casa, tipicamente caipira e ao preparar essa receita lembrei muito dele.

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abril 6, 2012

no dia 07 de abril…

Alô, alô Realengo, aquele abraço… O Bairro Realengo na periferia do Rio de Janeiro sempre foi conhecido por abrigar grandes instituições militares do exército, mas ficou realmente conhecido nacionalmente pelo trecho da música Aquele Abraço, composta por Gilberto Gil em referência ao tempo que ficou na prisão militar no bairro na época da Ditadura Militar.
Na manhã de 7 de abril de 2011, o Bairro ganhou repercussão internacional quando Wellington Menezes abriu fogo de maneira indiscriminada contra crianças em uma escola que havia estudado há alguns anos.
Eu tomava café nessa manhã e escutava, de maneira perplexa, os jornais noticiarem a tragédia. Pensei na dor daqueles pais e no sofrimento que eu também estava sentido pela possibilidade de perder o meu pai que estava na U.T.I
A última vez que conversei com o meu pai foi por telefone, quando ele já estava internado. Quando cheguei ao hospital ele já estava desacordado e respirando através de aparelhos. Durante toda a semana fui visitá-lo e o seu quadro continuava inalterado, sem melhoras. Um bom sinal, de acordo com os médicos: – não piorar já é um passo, quando a saúde está muito debilitada – eles informavam dia após dia.
Recebi o mesmo boletim médico antes da visita e fui ao seu encontro. Diferentemente dos outros dias, em que ele estava totalmente sedado, naquele momento estava muito agitado. A sensação era que estava tendo um pesadelo forte, debatia-se, não conseguia acordar.
Sem saber lidar com aquela situação, fui atrás de ajuda. Fui informada que haviam diminuído a sedação para que ele fosse reagindo aos poucos e que provavelmente estava incomodado com todos os equipamentos e por isso o desconforto.
A agonia dele não diminuía e minha angústia de vê-lo daquela forma, amarrado, mesmo sabendo que era para não se machucar, crescia na mesma proporção. Os médicos aumentaram a dosagem de sedação e aos poucos ele foi se acalmando.
Em determinado momento, ele voltou a se agitar e novamente pedi ajuda. O som cadenciado dos aparelhos foi diminuindo, o batimento cardíaco sinalizado na tela começou a cair gradativamente. A enfermeira que estava comigo disse para eu ficar tranquila, pois como ele estava muito agitado havia saído um encaixe de um dos equipamentos de monitoração.
O relógio marcava quase 12:00 h, horário que encerraria a visita. Neste dia, ninguém veio avisar que já estava na hora de ir embora. Eu fiquei ali olhando a enfermeira recolocando os aparelhos de medição de maneira tranquila e fui me sentido mais aliviada por ele ter se tranquilizado novamente. De repente, me deparei com o olhar do meu pai, um olhar vazio. Imediatamente falei: – Ele está com os olhos abertos.
Wellington matou 12 crianças, eu escutava na TV enquanto aguardava o retorno dos médicos sobre o estado do meu pai. Um policial militar conseguiu acertar o atirador que, logo depois de ferido, se suicidou. O sargento Alves fez com que a tragédia não tomasse uma proporção ainda maior.
Fiquei ali escutando todos os detalhes sobre o caso , a ação heroica do sargento, os nomes das crianças assassinadas, o desespero dos parentes e amigos. Comecei a pensar no fato, do meu pai ter o mesmo sobre nome do sargento – Alves, e os dois estavam, nesse mesmo dia, travando uma batalha para preservar da vida, cada um à sua maneira.
Os médicos entraram apressados e pediram para que eu saísse do quarto, fui informada que ele estava sofrendo uma parada cardíaca e que fariam os procedimentos de reanimação. Pediram para que eu aguardasse e voltasse daí algum tempo. Antes de sair, disseram: Fique tranquila ele está vivo e está sendo atendido, o quadro é delicado, mas por enquanto está tudo bem. – O olhar dele não estava mais aqui, estava vazio – respondi.
Quando retornei, recebi a confirmação sobre o que já sabia.

Um ano após esses acontecimentos a vida renasce e é transformada , diariamente, apesar da perda…

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